Todos recordam aquela frase com a qual Bill Clinton desarmou George Bush pai na competição presidencial de 1992. Uma expressão parecida poderia ser utilizada no momento atual, quando muitos pensam, no Brasil e no exterior, que Obama está de visita a esse país para vender os F-16 fabricados nos Estados Unidos, neutralizando seu competidor francês e para promover a participação de empresas estadunidenses na grande expansão futura do negócio petroleiro brasileiro.
Em junho de 2002, quando o preconceito contra o candidato Lula e o ódio a seu partido, o PT, eram inoculados dioturnamente na opinião pública pelas trombetas da orquestra midiático-tucana, um empresário rico, bem-sucedido, aceitou transformar-se em antídoto ao veneno difamatório. Tornou-se vice na chapa do operário metalúrgico. Filho de Muriaé, (MG), dono do maior complexo têxtil do país, a Coteminas, o então senador José Alencar, o Zé, como Lula passou a chamá-lo carinhosamente, sabia muito bem o que estava fazendo.
Trata-se de um e-mail encaminhado a mim pelo Caio, que eu não sei bem de quem é, mas cujo conteúdo dá muito pano pra manga. Espero que vocês gostem e que possamos discutir. Abraços
Hugo
Renato,
o Brasil fracassou na única coisa que não poderia ter fracassado, na educação, e isso começou na época do então regime militar, quando inventaram o tal do Mobral e passaram a se preocupar com a quantidade, não que isso não fosse importante, e se esqueceram da qualidade.
Na aviação a gente tem um postulado que diz que, pior do que um piloto que não sabe, é um piloto que acha que sabe. Trazendo isso para a educação, pior do que um analfabeto, é uma pessoa mal alfabetizada.
Inventaram nomes modernosos para os antigos primário, admissão, ginásio e científico ou clássico, a base de tudo, mas esqueceram de manter a qualidade que eles tinham.
Já no nível superior, a coisa foi mais trágica ainda porque, além da queda brutal do nível do ensino das instituições já consagradas, permitiram que se abrissem aos borbotões fábricas e mais fábricas de diplomas; lucrativas instituições particulares que nos apelidamos de UniEsquina, Fafup e outros nomes jocosos assim.
Inicialmente eram apenas cursos, digamos, insipientes, mas que hoje caminham perigosamente à formação de médicos, engenheiros e outras temeridades dessas.
Via de regra, os bares que ficam ao redor dessas UniEsquinas são mais movimentados do que as próprias salas de aula.
Aliás não só os bares vizinhos a essas Fafups, muitos botecos que ficam ao redor de instituições de ensino tradicionais e consagradas também já estão tendo mais movimento do que as próprias escolas.
Ao mesmo tempo, deu-se força e crédito aos chamados intelectuais de barzinho, intelectualóides que acham que Chico Buarque é música erudita, que maconha deixa mais lúcido e outras bobagens assim.
Já que mencionei música erudita, não consigo esquecer um jovem e querido amigo que estava se formando em uma dessas faculdades de carregação e que perguntou se eu tinha "aquela vinhetinha" que tocava na Hora do Brasil, porque ele pretendia usa-la para sonorizar o seu trabalho de conclusão de curso.
"Aquela vinhetinha" era a protofonia da ópera O Guarani, no meu entendimento a mais importante ópera brasileira.
Teve também um professor de cursinho que insistia em falar aos seus alunos da "famosa" sinfonia inacabada... de Beethoven segundo ele... pasmem.
Agora, no meu entendimento de quem teve a felicidade de ter um ensino às antigas, com direito a latim, francês e inglês e a ter que levantar quando uma pessoa mais velha entrava na sala de aula, eu lhe digo que nada mais trágico nessa tragédia do que a desmoralização dos professores, seja pelo aviltamento das suas remunerações ou pelo aviltamento da sua autoridade.
Autoridade que aliás já começa a ser aviltada na própria casa dos alunos, porque se nem aos pais se respeita dentro de casa, o que se dirá do respeito a um professor na sala de aula.
Isso tudo pode ter começado lá longe, na época dos militares, mas continuou acontecendo e piorando por todos os regimes e governos que vieram depois, de direita, de centro e de esquerda, e continua a mesma porcaria nos tempos atuais.
De Mobral a Enem, de Castelo Branco a Lula, vamos poupar a Dilma que está chegando agora, não mudou nada, só piorou, e isso é a derrocada de qualquer nação.
Nos últimos 30 anos, a desregulamentação e a liberalização da finança quebraram as barreiras impostas pelas reformas dos anos 30 do século passado, criaram os supermercados financeiros e promoveram a securitização dos créditos. No vendaval das reformas neo-liberais, os governos abandonaram as políticas de estabilização de preços baseadas na formação e operação de estoques reguladores (ainda que os países desenvolvidos tivessem mantidos os subsídios a seus agricultores) e submeteram os mercados de commodities, instáveis por sua própria natureza, ao capricho e à sanha especulativa dos mercados futuros. O artigo é de Luiz Gonzaga Belluzzo, especial para a Carta Maior.
“Meu trabalho era, na essência, identificar países que têm recursos que as corporações americanas desejam– como petróleo – e então conseguir enormes empréstimos de instituições como o Banco Mundial para esses países. Mas a maior parte do dinheiro nunca ia para o país, e sim para as corporações americanas, que construíam enormes projetos de infra-estrutura para aquele país, como usinas de energia, estradas, portos, coisas que ajudavam os ricos daqueles países, mas geralmente não ajudavam a maioria da população. E os países acabavam com uma dívida enorme, tão grande a ponto de não poder ser paga. Então, em algum momento, um sabotador econômico voltava ao país e dizia: olha, vocês nos devem muito dinheiro, não podem pagar a dívida, então vendam petróleo muito barato para nossas empresas, ou votem conosco na ONU, ou enviem tropas para ajudar nossas guerras.” (Confissões de um sabotador econômico)
Eu conheci esse texto há mais ou menos cinco anos, em 2006, e foi ele que motivou a criação de meu Blog ‘Por Trás das Cortinas’. Ali, eu buscava trazer à tona informações de bastidores da política lorenense para que esse tipo de coisa não acontecesse aqui. É claro que acontecia, acontece e vai acontecer. Mas algumas pessoas, que tinham boas intenções, acabaram encontrando em mim um suporte para as ações que eles queriam fazer, mas nem sempre tinham condições, por pura falta de informação.
Outro dia, nós conversávamos sobre as várias questões e problemas que o Brasil enfrenta. E uma dúvida soou sem resposta: “Por que isso acontece assim?” Por que as pessoas agem dessa forma, maldosa, maliciosa, tentando sempre tirar vantagem uma sobre as outras? Maquiavel e Thomas Morus passaram a vida discutindo se o homem é um ser mau por natureza ou não.
Então eu chego em Lorena e, ao abrir o jornal da cidade no sábado de manhã eu vejo a notícia de que um policial foi morto. Um policial civil. Elizeu. 35 anos, pai de quatro filhos. Mas, embora possa ser mal interpretado, algo vem acima disso quando falamos de sua morte, ao perseguir um grupo de assaltantes dentro de um matagal. Elizeu era um servidor público de verdade. Tinha a polícia no sangue. Estava ali para proteger os cidadãos. Fui testemunha disso. Não sentava em uma cadeira e esperava os inquéritos se acumularem. E morreu, fuzilado. Então, a pergunta se refaz. Por que isso acontece assim?
Não sei responder. Sinceramente. Por que fazer o mais difícil, o que dá trabalho, o que é desafiador, o que incomoda os outros, ‘o que é certo’ ao invés de sentar e esperar as coisas acontecerem? Não sei, mas mesmo sem saber a resposta, digo que continuarei a fazer dessa forma. E tenho certeza que cada um de vocês, a quem escrevo, também pensa dessa forma.
Tomo a liberdade de enviar dois vídeos, de duas mulheres (pura coincidência hoje ser 8 de março) que também ousaram fazer o que julgam correto. A primeira, jornalista, já teve o que ‘mereceu’. Perdeu seu emprego.
A segunda, deputada Cidinha Campos, não tenho notícias, mas temo por sua segurança, sobretudo por legislar no belo e perigoso estado da Guanabara. (Vale a pena ver os 7 minutos do discurso dessa senhora).
Assim, da mesma maneira como me pergunto por que algumas pessoas simplesmente se recusam a pensar em outras, me espanto com a coragem de outros seres humanos que, mesmo diante de situações em que seu bem mais precioso pode ser tirado, insistem em fazer o que é certo.
Como podem existir mulheres como estas, que enfrentam o sistema, buscando defender os interesses de todos, mesmo que possam ferir os seus?
E como podem existir pessoas que defendem a criação de um sistema que fere a vida de muitos apenas para que sirvam a seus interesses?
O que pensar ao ler uma reportagem que denuncia que milhões de pessoas estão passando fome na África porque alguns investidores resolveram que a especulação do preço de alimentos é uma ‘ótima’ opção de lucro? (Especuladores da fome fazem preço dos alimentos aumentar)
O que podemos fazer? Não sei, sinceramente. Eu sei o que podemos deixar de fazer. Edmund Hussel é o autor de uma frase das mais lúcidas que conheço: “para que o mal triunfe basta que os bons não façam nada”. Para quem prefere uma linguagem bíblica, posso dizer que a omissão também é um pecado. (“Se alguém pecar porque, tendo sido testemunha de algo que viu ou soube, não o declarou, sofrerá as conseqüências da sua iniqüidade.” - Levítico 5:1)
Assim, é preciso fazer algo. Eu acredito que um dos lugares onde se descobre, se não se faz, algo a esse respeito, é nas universidades. E para mim, foram poucas as oportunidades de estar em universidade que tivemos por aqui. Eu acho que é possível e é preciso fazer mais, muito mais.
Há muito o que se discutir, há muito o que se pensar, há muito o que se planejar, há muito o que se fazer. Muitas vezes ajo como observador, olhando como os seres humanos se relacionam, como uns tratam os outros, como não tratam, como se comportam individualmente, em grupo.
Voltando para Lorena, um colega nosso me contava, depois de ouvir um pouco disso daqui, sobre uma aula com o professor Márcio Barreto em que se discutia o filme Matrix. Confesso que não entendi completamente o que ele disse, mas era um ponto de vista sobre o qual antes de Neo entrar na Matrix ele vivia um mundo ilusório, onde suas preocupações eram o dinheiro, o consumo (não só de bens materiais), a luxúria. Ao ser ‘convidado’ a conhecer um mundo novo, que não viria sem sacrifícios, ele conseguiu desenvolver suas habilidades e fazer a opção de trocar seus interesses próprios pelo interesse coletivo, pelo bem da humanidade.
Essa aula foi, na minha opinião, um exemplo de universidade. Aplicações teóricas que podem nos ajudar a entender e, obviamente, mudar o mundo em que vivemos.
Por que não fazemos isso, esse tipo de exercício?
O mundo está cheio de demonstrações de como devemos lidar com ele. Para quem quer ser um observador, há muitas coisas a se conhecer e melhorar o mundo a nossa volta. Cabe a nós fazer as escolhas que desejamos. Convido a vocês a pensarmos em fazer algo. Não, não tenho a menor idéia do que seria isso. Mas sei que quero fazer, o que já é um bom começo.